
Você já percebeu como está crescendo o número de pessoas que saem da terapia com uma certeza instalada: ser vítima é quem elas são. Não como ponto de partida para entender a dor. Como identidade permanente. E eu precisei falar sobre isso com honestidade.
O que precisa ser dito antes de qualquer coisa
Sim. Muita gente passou por situações horríveis, injustas, traumáticas. Abuso, abandono, violência, traição, negligência. Dores que ninguém deveria ter que carregar.
E é fundamental olhar para isso. Nomear. Validar. Acolher. Esse é um passo real e necessário no processo de cura, e não estou questionando isso.
O que estou questionando é o que acontece quando a dor vira identidade. Quando reconhecer o que aconteceu deixa de ser o começo do caminho e passa a ser o caminho inteiro.
Porque existe uma diferença enorme entre reconhecer a dor e viver como se fosse só isso.
O que acontece quando ser vítima vira o único lugar possível
Quando a gente se coloca apenas no lugar de vítima, algo muito específico acontece: a gente perde as rédeas da própria vida.
Não por fraqueza. Por lógica.
Vítima não tem escolha, só reage. Vítima fica esperando que o outro mude, que o mundo repare, que a cura venha de fora. Fica presa num enredo onde ela não é protagonista, é personagem secundária da própria história .E ser vítima como identidade fixa mantém a gente presa exatamente aí.
E aí a vida passa. Em espera. Em ressentimento. Em dependência de uma reparação que talvez nunca chegue da forma que foi imaginada.
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O que a psicanálise propõe em vez da identidade de vítima
A psicanálise faz um caminho diferente. Ela escuta a dor, sim, com atenção e profundidade. Mas ela não para aí.
Ela te convida à responsabilidade pela parte que vem depois.
E aqui preciso ser muito clara, porque essa palavra assusta muita gente: responsabilidade não é o mesmo que culpa. Você não é responsável pelo que te fizeram. Não é culpada pela dor que te atravessou. Não escolheu o trauma.
Mas a partir do momento em que você reconhece o que aconteceu, vem uma pergunta que só você pode responder: o que você vai fazer com isso agora?
Não dá para mudar o passado. Mas dá para dar um novo sentido. Dá para construir algo diferente a partir disso. E essa construção, quando acontece, é uma das coisas mais poderosas que um ser humano pode fazer.
A escuta que liberta versus a escuta que aprisiona
Existe uma diferença entre o terapeuta que valida sua dor como ponto de partida e o terapeuta que reforça sua dor como destino.
O primeiro te ajuda a entender de onde veio, o que isso produziu em você, e como você pode, a partir daí, construir algo diferente. Ele caminha junto no processo.
O segundo, mesmo sem intenção, mantém o paciente no lugar onde foi ferido. Valida sem desafiar. Acolhe sem convidar ao movimento. E isso pode parecer cuidado, mas é uma forma de aprisionamento disfarçado de terapia.
Eu, em formação como psicanalista, acredito numa escuta que liberta. Que te ajuda a sair do lugar onde te feriram e te leva para um lugar onde você decide o que quer construir.
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Ser vítima ou viver como vítima: onde está a escolha
Vou dizer algo que pode incomodar, e digo com todo o cuidado que o tema merece.
Em algum momento, viver como vítima pode se tornar uma escolha. Não a dor, que não foi escolhida. Mas a permanência nesse lugar, sim.
Porque sair de lá exige algo difícil: assumir que, a partir de agora, você tem agência. Que o que aconteceu não define o que vem depois. Que você pode, mesmo com as marcas que ficaram, construir uma vida que vai além da dor.
Isso não é diminuir o que você viveu. É reconhecer que você é maior do que isso.
E o melhor: você não precisa fazer esse caminho sozinha. Existe escuta que acompanha sem aprisionar. Existe processo que move sem apagar. Existe um outro lado desse caminho, e ele começa com uma pergunta honesta: o que eu quero construir além de ser vítima do que aconteceu?
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Esse texto tocou em algo que você já sentiu ou já viu em alguém próximo? Me conta nos comentários. Esse é um assunto que merece conversa honesta. Fique com Deus.