
Tem uma música que diz: a vida não é filme e você não entendeu. Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu.
Eu penso nessa letra com frequência. Porque a gente se acostumou com uma versão da dificuldade que não existe fora das telas. Nos filmes de Hollywood, a luta aparece em flash. Passa rápido, com uma trilha sonora linda embaixo, e em dois minutos o personagem já está do outro lado, transformado, vitorioso.
Quem nunca se emocionou com Rocky Balboa? Só de lembrar da cena, a música já começa a tocar na cabeça. A gente sai do cinema inspirada, com vontade de correr escada acima.
E aí a vida real aparece.
Sem música.
Sem edição.
Sem o corte que pula a parte chata.
A jornada que ninguém filma
Eu estou num processo de cura. De organizar a minha vida. De tentar ser uma pessoa mais saudável em todos os sentidos.
E o projeto é lindo. De verdade. Eu sei para onde ele vai me levar. Consigo ver esse lugar melhor com clareza.
Mas a jornada é difícil. É cansativa. E dói.
Desde os meus 17 anos eu luto contra a obesidade. Cresci numa época em que ser gorda era lido como falta de vontade, como preguiça, como fraqueza de caráter.
Não se falava em genética, em histórico emocional, em relação com a comida construída ao longo de anos.
Era simples: ou você queria ou não queria.
Só que não era simples.
Nunca foi.
O que a minha geração não aprendeu
Eu venho de uma geração que não foi ensinada a lidar com o que sente.
Emoção não tinha espaço.
Não se nomeava, não se processava, não se ensinava a cuidar disso.
A gente engolia, seguia em frente, e às vezes engolia literalmente.
E tentar ajustar a rota agora, com 49 anos, depois de tantos atalhos que me fizeram voltar para o mesmo lugar ou andar para trás, é uma das coisas mais difíceis que já vivi.
Não porque eu não queira.
Porque eu quero muito.
Mas querer não é suficiente quando o padrão está enraizado há décadas.
Quando o corpo tem memória.
Quando a cabeça tem trilhas antigas que se ativam antes mesmo de você perceber.
Mudar não é um momento de decisão.
É uma escolha que precisa ser repetida todos os dias, inclusive nos dias em que você está cansada de escolher.
Leitura recomendada
O Corpo Guarda as Marcas — Bessel van der Kolk
Um dos livros mais importantes sobre como experiências emocionais não processadas ficam registradas no corpo, e o que isso significa para quem tenta mudar padrões antigos. Leitura que explica muito do que a gente sente mas não consegue nomear.
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A realidade sem trilha sonora
Todos os dias, quando vou treinar, quando monto meu prato, quando sento numa sessão de terapia, a realidade vem.
Sem corte bonito.
Sem música motivacional.
Sem ninguém aplaudindo do lado de fora.
Só eu, o processo, e a pergunta silenciosa de se vale a pena continuar.
E vale.
Eu sei que vale.
Mas saber que vale não torna mais leve o dia em que o corpo dói, a cabeça cansa e a vontade some.
É nesses dias que a ilusão do filme cobra o preço.
Porque a gente foi ensinada a achar que, se estivesse no caminho certo, seria mais fácil.
Que dificuldade é sinal de que algo está errado.
E quando o processo dói mesmo estando certo, a gente fica sem referência.
Leitura recomendada:
A Coragem de Ser Imperfeita — Brené Brown
Para quem está num processo difícil e carrega a sensação de que deveria estar indo melhor. Brown escreve sobre vulnerabilidade, vergonha e o que significa aparecer pela própria vida sem precisar de plateia.
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Ninguém vai fazer por você
Se tem uma coisa que eu aprendi, e sigo aprendendo na prática todos os dias, é essa:
Ninguém vai fazer por mim o que precisa ser feito.
Não é abandono.
É responsabilidade.
É a única forma de mudança que dura.
Posso ter apoio, e agradeço por cada pessoa que está do meu lado nesse processo.
Posso ter terapia, acompanhamento, comunidade.
Mas na hora que importa, a escolha é minha.
O esforço é meu.
A sustentação é minha.
E se eu quiser ser quem eu quero ser, vou ter que aparecer por mim mesma, repetidas vezes, mesmo nos dias em que não estou com vontade de aparecer.
Isso não é motivação.
É maturidade.
É o tipo de amor por si mesma que não depende de sentir, mas de fazer mesmo assim.
Leitura recomendada
Você Pode Curar a Sua Vida — Louise Hay
Um clássico sobre a relação entre o emocional e o corpo, e sobre como começar a construir uma relação mais gentil e honesta consigo mesma. Para quem está no começo ou no meio de um processo de cuidado real.
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Para quem também está no meio do processo
Se você também está tentando mudar algo e está achando difícil, saiba que a dificuldade não é sinal de fraqueza.
É sinal de que o que você está enfrentando é real.
A vida não é filme.
O processo não tem trilha sonora.
E ninguém vai ao seu quarto quando escurece.
Mas você pode aparecer por si mesma.
Todo dia.
De um jeito pequeno, sem glamour e sem plateia.
Isso é o suficiente.
E com o tempo, é o que constrói quem você está se tornando.
Esse texto tocou em algo que você também está vivendo? Me conta nos comentários. E se ele fez sentido, compartilha com alguém que está no meio de um processo difícil e precisa saber que não está sozinha.